Censo EAD Brasil: investimentos e saúde financeira da modalidade

Apesar da retração, o investimento em EAD demonstra que o setor está conseguindo manter a estabilidade

Não é bem verdade que a educação tenha saído ilesa da retração econômica que se instaurou no Brasil. Entretanto, se há de fato uma crise, o número crescente de matrículas na educação a distância (EAD) neutraliza seus efeitos. O investimento em EAD no Brasil se manteve estável em 2016, o que, por outro lado, também indica que não houve crescimento.

O Censo EAD ABED demonstrou que, em 2015, mais de 41% das instituições previram aumento nas aplicações para o ano seguinte. Ao final de 2016, no entanto, somente 29% conseguiram cumprir a meta. Passado esse período, as instituições renovaram o otimismo para os próximos semestres. Mais de 74% das participantes da pesquisa revelaram que pretendem aumentar os investimentos nos cursos totalmente a distância, semipresenciais e livres não corporativos.

Especialistas no assunto não acreditam que tenha chegado um momento de queda. Enquanto algumas instituições tendem a frear os custos, outras investem ainda mais em inovação, esperando a ascensão do mercado. “Eu vejo um mercado muito aquecido para buscarmos soluções em tecnologia e nos processos pedagógicos”, avalia a pedagoga Rita Tarcia, diretora da Associação Brasileira de Educação a Distância (USP).

Na medida em que o ensino a distância se populariza, o setor precisa investir em melhorias, que vão desde a compra de softwares mais modernos às próprias pesquisas em e-learning. “Já tivemos um tempo de amadurecimento dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs), da produção de conteúdo e da tutoria. Agora estamos no momento da expansão, investindo em polos, capacitação docente e, claro, uma tecnologia que suporte essa expansão”, afirma a diretora.

De fato, o investimento brasileiro tem sido injetado em tecnologia, especialmente em versões atualizadas de AVAs e na implementação de sistemas em nuvem. Nos cursos totalmente a distância, a produção material também recebeu aporte: mais de 41% do investimento em EAD foi destinado a novos materiais em texto e vídeo, demonstrando uma preocupação com o preparo teórico da turma.

Remuneração importa

O Censo EAD contabilizou mais de 36 mil profissionais espalhados pelo Brasil exercendo atividades de tutoria e docência nos cursos totalmente a distância. Em média, 13% das instituições pagam menos de R$ 30 por hora/aula aos docentes, enquanto outros 20% pagam entre R$ 31 e R$ 45.

A exemplo dos países que são referência, como Estados Unidos, Chile, Espanha e Índia, o Brasil quer se consolidar em práticas de e-learning – questão que passa diretamente pela valorização dos professores e pelo crescimento do setor. “Esses valores de hora-aula são, muitas vezes, superiores ao que se paga no ensino presencial, o que já demonstra uma certa vantagem da modalidade EAD”, afirma Rita.

Além disso, o desenvolvimento da educação a distância (EAD) também atravessa pontos como a visão estratégica de pequenas instituições, que podem estar satisfeitas com um número baixo de matrículas e as taxas de evasão. Por mais que haja estratégias de redução de gastos, a saúde financeira de uma IES depende basicamente de alunos.

O problema é que as dificuldades econômicas podem justamente provocar o abandono escolar. A taxa de evasão na modalidade totalmente a distância em 2016 é relativamente baixa (cerca de 11%), se comparada aos anos anteriores, que já registraram mais de 30%. Ainda assim, fica o alerta. “Estamos em um ciclo. A preparação de profissionais para o futuro depende das instituições – mas também fomenta o próprio mercado do ensino”, considera Rita.