Ensino híbrido: 7 lições da Uniamérica para a aprendizagem efetiva 

Mais de 40 pessoas se apertavam numa sala envidraçada na noite de 19 de setembro. O objetivo: conhecer um modelo considerado por especialistas como um dos mais inovadores do Brasil. Distribuídos em volta de mesas redondas, professores, gestores e profissionais de instituições de ensino de todo o país ouviam atentamente a fala de Ryon Braga, diretor-presidente da Uniamérica, em Foz do Iguaçu. O motivo: entender como a faculdade deu uma guinada no modelo de ensino e passou a oferecer o ensino híbrido em todos os cursos. “A maioria das pessoas não têm noção das mudanças que estão ocorrendo no ensino. Pode ser que isso se transforme numa verdadeira revolução na educação”, pontua. 

Médico especialista em Neuropedagogia, Braga se consolidou como um dos mais renomados consultores brasileiros em ensino superior. Durante sua trajetória, observou experiências de sucesso em novos modelos de aprendizagem. Porém, eles ainda eram executados de forma muito isolada. “O que estamos tentando fazer aqui não é nada novo. Essas metodologias já existem há muito tempo”, afirma. “A novidade é tentar aplicar isso a um contexto educacional.” 

A Uniamérica é uma Faculdade Comunitária, mantida pela Associação Internacional União das Américas, criada após uma iniciativa capitaneada por Braga de adquirir a instituição, à época em dificuldades financeiras. Uma mudança tão radical, entende ele, só seria possível a partir de uma associação comunitária, sem fins lucrativos e de caráter filantrópico. “Já existem pessoas de outras cidades e estados vindo para Foz do Iguaçu só para estudar na Uniamérica.” 

Por enquanto, a iniciativa ainda é uma experiência isolada. No entanto, a faculdade vem se destacando no cenário nacional: só no ano passado, representantes de cem instituições realizaram visitas para conhecer o modelo do ensino híbrido – que, ele garante, logo se tornará o padrão de ensino nas instituições brasileiras. “Daqui a alguns anos, não fará mais sentido falar em curso presencial ou à distância. Cada vez mais os dois ambientes estão se misturando”, afirma Braga. 

Conheça, a seguir, os elementos que tornam a Uniamérica uma referência em inovação no ensino superior no Brasil. 

1. Currículo por módulos, não disciplinas 

Uma das primeiras medidas da Uniamérica foi acabar com a organização do currículo por disciplinas. Isso porque o MEC exige somente que as instituições respeitem as diretrizes curriculares de cada curso. A divisão por disciplinas é uma convenção que remonta às origens da educação moderna. Na Uniamérica, os conteúdos são divididos em módulos, cuja escolha, feita pelo professor, é baseada nos projetos que serão trabalhados em sala de aula – e fora dela, como orienta o ensino híbrido.

2. Aprendizagem just-in-time  

Imagine um aluno do curso de administração. Em geral, ele verá os conteúdos relacionados à análise de balanço ou avaliação de ativos nos primeiros semestres. A aplicação, no entanto, ocorrerá apenas nos projetos finais de curso – o que significa que ele provavelmente terá que estudar esses conteúdos novamente. O modelo tradicional de ensino se baseia no modelo just-in-case: ensinar ao aluno tudo o que ele poderá vir a precisar na carreira, transformando-o num repositório de conhecimento – ao menos em teoria. Na Uniamérica, o ensino é just-in-time. Isto é, o aluno aprende apenas o necessário para aplicar aquele conhecimento a um determinado projeto.

3. Aprendizagem baseada em projetos 

Aqui entra outro diferencial da Uniamérica: os projetos não se limitam a estudos de caso. A faculdade tem parceria com ONGs, órgãos públicos e outras instituições parceiras para que os alunos vivenciem situações com as quais eles irão se deparar no mercado de trabalho. Desde 2015, por exemplo, a Uniamérica administra o Poliambulatório, centro de saúde vital para Foz do Iguaçu. Nos últimos anos, no entanto, o local vinha passando por dificuldades financeiras e de gestão. No convênio, realizado sem contrapartida financeira, coube à Uniamérica a gestão do hospital, garantindo a ampliação da capacidade de atendimento e a melhoria da qualidade. É comum que, além dos professores, pessoas ligadas aos projetos, como líderes comunitários ou profissionais, que atuam como facilitadores, estejam presentes nas salas de aula da Uniamérica.  

4. Professor como orientador 

Em muitos cursos semipresenciais, as aulas em sala são expositivas. “Aqui, é proibido dar palestra”, brinca Braga. A Uniamérica trabalha com a ideia de aprendizagem efetiva. Ou seja, não basta o aluno compreender o conceito: é preciso saber aplicá-lo. “Se o aluno lembra da resposta, mas não consegue agir em cima desse conhecimento, a resposta não tem utilidade nenhuma”, afirma. A aplicação dos conteúdos na Uniamérica é dividida em quatro etapas: aquisição individual da informação (no ambiente online); ampliação da compreensão (por meio de exemplos práticos); elaboração (quando o aluno explica o que aprendeu, por meio de relatórios ou discussões em sala, por exemplo); e aplicabilidade (quando são realizados os projetos práticos).  O professor entra em  sala para ajudar o aluno a elaborar projetos, segundo Braga, que faz questão de salientar que não há disciplinas totalmente EAD: somente parte da carga horária é executada no ambiente online, com aplicação dos conhecimentos sempre com a orientação de um professor.  

5. Avaliação periódica 

Garantir que o aluno efetivamente estude o que está sendo disponibilizado no ambiente online é um desafio. Por isso, em vez de uma prova final, que costuma privilegiar os alunos que só estudaram no final do semestre, são realizadas avaliações semanais. “Provas são uma excrescência do sistema”, critica Braga. Para ele, a prova final beneficia o aluno que não estuda durante o semestre. “Tem aluno que ainda fala com orgulho: ‘Nunca precisei ler um livro e sempre tirei boas notas’.” Toda segunda é realizada uma prova sobre o conteúdo que o aluno deve ter estudado no ambiente online para trabalhar em sala ao longo da semana. “Só vai para a sala de aula depois da prova sobre aquele conteúdo”, afirma Braga.

6. Redução de custos 

Um dos benefícios do ensino modular é a redução de custos. Por não haver mais a divisão por disciplinas, também não há pré-requisitos em relação aos conteúdos. Afinal, a cada módulo os alunos terão apenas os conteúdos necessários para aquele momento. Assim, é possível viabilizar cursos com um pequeno número de alunos sem elevar os custos por aluno – garantindo a sustentabilidade financeira e a possibilidade de oferecer mais bolsas de estudo.  

7. O futuro: ensino gratuito 

A Uniamérica planeja se tornar a primeira instituição privada 100% gratuita no Brasil. A meta, obviamente, é audaciosa. A ideia é ampliar o leque de aplicação de projetos, hoje bastante voltados a instituições sem fins lucrativos. Assim, futuros parceiros poderão ajudar a custear a mensalidade dos alunos, beneficiando-se do conhecimento desenvolvido em sala de aula. Ainda é um caminho longo, mas ele diz já estar conversando com possíveis interessados. “O aluno terá a oportunidade de realizar um curso que será fruto de seu próprio esforço, sem depender de terceiros.”