Educação comercial: fórmula que desandou

O ensino de pós-graduação para administradores por meio de MBA crescia nos anos 2000. Se, no campo da tecnologia, a internet dava os primeiros sinais de uma iminente revolução, as escolas de negócio e os MBAs prometiam sucesso para aqueles que queriam surfar na onda da busca por executivos profissionais. Os últimos anos, entretanto, demonstraram que a educação comercial – voltada também ao marketing e à economia – acabou trilhando o caminho inverso. Mundo afora, esses cursos perderam credibilidade na academia e no próprio mercado de trabalho.

A falta de habilidades técnicas, como a capacidade de gerenciamento em situações de crise, é uma das principais reclamações entre os empregadores. Especialistas em educação se debruçaram sobre o tema para responder uma pergunta: em que momento o ensino comercial errou? O canadense Henry Mintzberg, professor na Universidade McGill, em Quebec, e doutor pela escola de negócios Sloan, do MIT, é um crítico ferrenho dos MBAs. Para ele, a ineficiência da pós-graduação em business tem contribuído com o agravamento de crises econômicas. O motivo é simples: gestores saem da sala de aula sem saber tomar as melhores decisões para os negócios.

A liderança é uma característica que só pode ser aprendida no mercado. Em sala de aula, os alunos constroem a falsa ideia de que tudo pode ser avaliado a partir de métricas. Para Ronaldo Mota, chanceler da Estácio, o problema não se restringe à educação comercial. “As demandas dos séculos anteriores foram bem atendidas pelas metodologias de que as escolas dispunham. Mas o mundo mudou de forma radical, e as estratégias anteriores simplesmente não funcionam mais”, avalia.

Teoria ou prática?

O problema está na metodologia. Para Mintzberg, o negócio não pode ser aprendido como profissão, como a medicina e a matemática. Ele deve ser encarado como um tipo de ciência, assimilado por repetição e experiência. As escolas promovem o aprendizado inverso: treinando a partir de simulações e estudos de caso, não garantem o conhecimento empírico. “É verdade que você é exposto a algo que aconteceu no mundo. Mas você leu 20 páginas, nunca conheceu o cliente, não usou o produto, talvez nunca tenha ouvido falar da empresa e mesmo assim vai se pronunciar sobre o que a empresa deveria fazer”, exemplifica Mintzberg, em entrevista à Harvard Business Review.

O aprendizado se reduz a respostas divididas entre “sim ou não”. Entretanto, aprender a deliberar em um curto espaço de tempo não é propriamente a atividade mais indispensável na vida de um gestor. Nessas dinâmicas, o aluno desempenha um papel ideal, recebe uma boa nota e acredita estar preparado para as decisões do mundo real, sem considerar as complexidades das relações humanas e do mercado. Essa abordagem, tão próxima da teoria e da produção acadêmica, esvazia o real significado do universo de negócios que demanda habilidades de relacionamento, de gestão de recursos e controle de riscos.

As empresas não são ligadas à academia quanto os especialistas em física ou química – nestes casos, é compreensível que os alunos precisem concentrar seus esforços em teoria. Já profissionais da biologia e da medicina, por exemplo, além das aulas teóricas de fisiologia, precisam colocar seus conhecimentos a prova nas atividades práticas de anatomia antes de estarem aptos para a vivência no mundo real. Por que as escolas de negócios não fazem o mesmo?

Para aqueles que acreditam ainda ser possível retornar às origens, apostando em um modelo que combine teoria e prática de mercado, o segredo está na preparação para o enfrentamento de desafios contemporâneos, acoplando as duas características (profissionais e acadêmicas). “A ênfase absoluta em somente uma dessas vertentes equivale a formar profissionais capengas. Os MBAS não podem ser confundidos com papéis específicos de capacitações internas, nem podem adotar um viés exclusivamente acadêmico, em que os casos abordados se tornam abstratos e distantes da realidade”, avalia Mota. Conjugar esses dois elementos, portanto, é a arte da educação contemporânea.

Direto ao ponto

Nesta lógica, alguns pesquisadores têm certeza de que o único caminho possível é começar do zero. “Você não pode treinar os jovens para serem gerentes. O ponto de partida é que ninguém deveria entrar em qualquer programa de MBA, até que esteja em cargos gerenciais e tenha experiência”, aposta Mintzberg. A sala de aula se torna um espaço de conexão e compartilhamento. A partir da vivência pessoal de cada aluno, podem ser construídas técnicas para potencializar a experiência.

Um modelo mais abrangente, que dialogue com a rotina empresarial e com o trabalho em equipe, e que coordene múltiplos projetos em um mercado ultra dinâmico, poderá garantir preparo nos níveis psicológico e emocional. Para chegar lá, é preciso formar um profissional com um amplo conjunto de conhecimentos. Em primeiro lugar, trabalhando habilidades metacoginitvas, associadas ao amadurecimento da capacidade de aprender continuamente. É preciso, ainda, um conjunto adicional de características. “Ele precisa ter um letramento sofisticado, que trabalha a capacidade de escrever e entender temas complexos; e um letramento matemático avançado, que inclui estatística e compreensão de elementos de modelagem e simulação. Isso pode facilitar o trabalho desses profissionais”, garante Mota.

Ou seja: ensinar é essencial, mas o papel de educar envolve mais competências. Ao finalizar o MBA, os novos profissionais vão encarar um mercado muito mais complexo – que tende a se reinventar agora em um espaço cada vez mais curto de tempo. Além disso, a habilidade de solucionar problemas complexos será posta a prova em um mercado hiperconectado. Desenvolver instrumentais socioemocionais, o trabalho em equipe e a compatibilidade com as características do mundo atual são igualmente relevantes.

Para saber mais

O livro MBA? Não, obrigado!, de Henry Mintzberg, apresenta as falhas dos cursos de especialização em negócios. A partir de uma análise abrangente do tema, o autor apresenta as inconsistências entre as necessidades reais do mercado de trabalho e aquilo que é ensinado em sala de aula.